Correspondência #11

Querido amigo,

Continuo andando pela cidade nova, seguindo os conselhos daquele sujeito chamado Guy.

Me alimento do cotidiano dos moradores da cidade e conto com o acaso.

Mando para você uma descoberta feliz, um caminho longo e infinito, uma saída para além do grid, um desejo de boas viagens.

Abraços,
R.

Re: Correspondência #11

Caro amigo,

Como fruto de uma boa oferenda, o caminho estendido parece ter aberto um fértil horizonte além-mar.

Breve, mas ainda assim, uma estada alvissareira em muitas dimensões.

De volta à cidade-porto, flaneio entre estruturas das fronteiras entre o público e o privado. Visíveis, concretas, tão bem demarcadas.

Outras tantas, talvez destinadas à guardar domínios mais íntimos, por vezes podem se dar ao luxo de ser revelarem em envolventes desarranjos.

Abraços,
San

Correspondência #10

Caro amigo,

Queria te contar um pouco sobre o momento que estou passando, de muito semear em terreno estrangeiro; talvez ao vento, uma vez que ainda sem frutos.

Mas como numa sessão de análise, me vejo monotemático: só consigo pensar nessa cena, nos objetos utilitários capturando árvores.

Estaremos todos, todas e tudo, apreendidos pelo utilitarismo, objetificados, normalizados?
As árvores não ensinariam nada a Sócrates?

E ao mesmo tempo, me questiono, talvez me constato; há encanto na pulsão.

Quiçá, mesmo com o barulho das máquinas, resistência.

Um abraço,
San

Re: Correspondência #10

Caro amigo,

Tento corresponder à sua mensagem;

Penso no conterrâneo de Sócrates, que recebeu como missão rolar uma pedra montanha acima, apenas para, ao chegar lá em cima, ver, com frustração, a pedra voltar ao ponto de partida;

O tempo tem seus ciclos: semear, mesmo que não pareça, vai trazer uma colheita; o vento pode até levar as sementes pra longe, mas elas irão germinar, e de longe os frutos vão chegar até você;

É preciso paciência e resiliência, como o homem que empurra a pedra na montanha; para isso, não há atalhos.

Enquanto isso, o tempo vai cuidar de transformar as sacolas plásticas em pássaros; e quanto isso, não há o que fazer.

Mas para as ações repetitivas, felizmente, já inventamos objetos muito úteis e esteticamente agradáveis.

um abraço,
R.

Correspondência #9

Caro amigo, já começo pedindo desculpas, por não mandar notícias antes.

Já faz algum tempo, eu sei. Na verdade, são exatos dois meses. Muita coisa aconteceu; me vi de novo de volta à nossa cidade, e tentei olhar pra ela com os olhos de quem retorna com saudade.

Descobri, da janela do avião de volta, que por enquanto, só consigo olhar pra lá de longe.

De volta a Alemanha, comecei a andar sem rumo por diversão, seguindo as dicas de um francês chamado Guy, e também de um alemão, chamado Walter.

E hoje, andando quase perdido, encontrei o sumiço de alguém.

Abraços,
R.

Re: Correspondência #9

Caro amigo,

Não nos culpemos pelo o que o corpo, por vezes, nos pede.
Há de haver tempo para marinar, delongar, se fazer presente.

Nossa cidade me parece cada vez mais distante.
Mesmo com a saudade dos amigos e família, que às vezes vem, em ondas.

Por aqui ando enredado em estórias do se assentar.
Incerto, contudo; se alterna a vontade crescida com um desejo leve de sair do chão.

Como um vestígio da dubiedade, descartada sem cuidado, me deparei com um ser coincé; entre o concreto ritmo da cidade e o natural anseio de voar.

Un ballon, non-rouge? Quiçá, retrato móvel de afetos perdidos que parecem estar tão evidentes ultimamente.

Abraços,
San

Correspondência #8

Caro amigo,

Passei algumas vezes nesse caminho e essa cena me atraiu a atenção.

Um habitat humano, cercado pelo conforto, pela comodidade e segurança.

Adentro, souvenirs de um território selvagem que ali já esteve presente: árvores domesticadas, com seus ramos podados para um crescimento dominado, ordenado.

Me pergunto sobre o que não se vê.
Sobre o que se encontra bem guardado, em camadas da existência.

As raízes – estarão também adestradas ou praticam seus desejos naturais?

Um abraço,

San

Re: Correspondência #8

Caro amigo.

Encontrei estas árvores, tão diferentes das que me enviou.

Parece uma espécie nova, decididamente cultivada. Suas raízes são profundas e retilíneas, descem fundo a partir do solo mas não se ramificam. Dos seus galhos em divisão regular e previsível crescem folhas retas feitas de aço que oferecem sombra e abrigo.

Durante o dia, milhares de pessoas passam por debaixo destas árvores, espécie de ninho temporário para quem vai voar pra longe.

Durante a noite, curiosos animais de cabelo colorido de indumentária exuberante, brincam na floresta artificial.

Abraços
R.

Correspondência #7

Caro Amigo,

Temos por aqui dias de céu azul, com temperatura em torno de -1 grau.

“It’s crystal clear cold” como me disse um coleguinha alemão.

Descobri uma piscina pública, não muito longe daqui do Solitude. Lá tem água morna, sauna, chuveiros quentes e tudo mais. João adora. Para chegar, pegamos um ônibus, descemos no ponto certo, e atravessamos esse túnel.

Gosto da imagem recortada pelo arco, pela diferença de cores. Uma metáfora de passagem, de promessa, de mudança, talvez.

Abraços,
R.

Re: Correspondência #7

Caro amigo,

Aqui o clima anda bem mais ameno e agradável, entre 10 e 15 graus. O corpo parece que aos poucos começa a se acostumar com os novos ares. Ontem dei até uma pedalada pela cidade sem usar agasalho.

De novidades, sinto que depois de tantas ondas e viradas de tempo, talvez agora o mar esteja ficando propício para o embarque do que foi bem guardado e coberto.

Um abraço,
San

Correspondência #6

Caro amigo,

por aqui ainda toco somente a superfície

aprecio a brisa, leve,
mas há um mar para se mergulhar

saber da profundeza,
o mundo imerso
o fundo a tocar

ou será que seria o inverso-visível,
o ar o mar?

Um abraço,
san

Re: Correspondência #6

Caro amigo,

Sua imagem me trouxe a mente uma outra, vista várias vezes em meus passeios pelo centro de Stuttgart.

Compartilho com você esta imagem e meus pensamentos de deriva.

As pessoas em movimento precário e incerto – se divertem

Escorregam e caem – e sentem prazer

Toca música – uma festa constante, movida a hits de Frank Sinatra.

Há luzes coloridas – bela aurora boreal gerada por LEDs.

A superfície é criada por um circuito de tubos de nitrogênio líquido.

O ar, os líquidos, os sólidos. O audível, o visível, o sensível.

As ilusões.

Correspondência #5

Caro Amigo,

São poucos dias e ainda assim parecem semanas; Esta semana propus uma oficina e edição experimental, junto com uma colega, escritora, também residente aqui. Nunca me encontrei tão incomodado ao me ver nesse papel; nunca encontrei uma turma tão diversa e ao mesmo tempo tão aberta à tentativa, doar parte do precioso tempo para uma experiência que pouco promete.

Hoje foi um dia muito especial, recebemos a visita de algumas famílias de refugiados com suas crianças; Um programa de domingo para eles, para nós, algo que se revelou como um encontro único. Pude ver seus rostos, pais, mães, filhos e filhas. Passearam e brincaram na neve. As crianças com os rostos pintados, transformadas em cachorrinhos, gatinhos, o homem aranha, a princesa, o batman. A sala tocava musica pop americana, eu me perguntava como aquela música soava para eles. Sírios tentando escapar da guerra, visitando um castelo na Alemanha e ouvindo música americana. No final, um almoço em que tomamos sopa e falamos sobre comida, como nós brasileiros gostamos da comida síria, como ela é comum no Brasil, como existe uma herança comum. Um esboço de reconhecimento entre realidades tão diferentes, a minha e a deles.

Muitas imagens e percepções se sucedem todos os dias. No nosso jogo, muitas vezes tento imaginar qual será o próximo passo, que imagem seria a próxima que continuaria a tecer o fio para o próximo movimento. Penso em imagens-pergunta, imagens-resposta, imagens-curva, imagens-cacoete, imagens-desafio.

Esta semana coletei e acumulei imagens-documento, pedaços do dia-a-dia, mas decidi enviar uma imagem que talvez possa andar junto com esta mensagem, sem mostrar nada sobre ela, mas talvez deixar uma sensação, imagem mudada com o passar dos dias, branca como folha de papel à espera do lápis.

Abraços,
R.

Re: Correspondência #5

Caro amigo,

Ao ler sua mensagem, fiquei imaginando como a oficina mesmo parecendo ser uma experiência delimitada, deve ter sido viva e intensa. Acho que talvez pela simplicidade, pela abertura ao exercício, por estar de uma certa forma livre de camadas isolantes, protetoras. Quiçá tenha aberto o caminho para diálogos sensíveis, agindo como uma senha para se ‘baixar a guarda’, despindo por um momento a casca que nos distancia e nos protege de forças externas capazes de nos agredir.

Por aqui, há uns meses atrás também tive em contato com alguns refugiados, num curso de francês que fiz. São estórias tristes, de muitas perdas, de raízes cortadas de forma bruta, violenta. Mas também de um recomeço. Marseille é uma cidade-porto onde a cultura árabe e africana é bem presente e que acolhe para uma nova vida. Ao mesmo tempo, não dispõe de uma reacomodação tão inclusiva: essa receptividade convive com um desacordo de parte da sociedade francesa à presença de estrangeiros de um modo geral. Às vezes uma oposição sutil, encoberta em pequenos gestos, imersa na linguagem corporal. Ou mais explícita, visível na criação de dificuldades nas tarefas mais corriqueiras à simples negação de direitos.

Para mim, estar aqui tem sido qualquer coisa como tatear no escuro, como ver por meio de uma penumbra. Intuir, desvendar aos poucos códigos, combinações e significados, às vezes sem entendê-los num primeiro olhar.

Explorar um campo fértil, lúdico e potente, se orientar por pistas entre o familiar e o desconhecido, sem avistar o que vem pela frente. Como as trilhas dos calanques que margeiam Marseille, um território que se desdobra aos poucos, rico em acidentes, declives, desafios, conquistas e caminhos. Aventuremos.

Um abraço,
San

Correspondência #4

Caro amigo,

Te mando essa foto que fiz no entardecer, a noite quase entrando, perto da praia.

Deixo para ti a perspectiva de seguir trilhas evidentes, demarcadas
ou o sabor de vaguear por caminhos incobertos, imprecisos.

Grande abraço,
san

Re: Correspondência #4

Caro Amigo

Eu sabia onde devia ir, sabia quando, mas de alguma forma perdi o momento exato.

Decidi continuar mesmo assim. No meio do vento, sentindo o frio nas mãos, consegui chegar quase perto do que eu desejava.

Um caminho que se desenha, talvez: sair da zona de conforto e tentar novas descobertas.

Abraços,
R.

Correspondência #3

Caro amigo,

Esta cena aconteceu há uma semana atrás, quando ainda existia céu azul e a temperatura estava em torno dos 10ºC. Agora tudo é neblina e o céu sempre branco ou cinza. Já nos sentimos mais em casa… tento olhar para a cidade e os assuntos urbanos, acho que em breve mandarei outras cores e coisas para você. Por enquanto uma imagem de liberdade e otimismo, horizonte reto, grama verde e uma criança que corre.

Abraços,
R.

Re: Correspondência #3

Caro amigo,

Fico feliz que esteja se sentindo confortável, como se tivesse em teu lar.

Senti na foto que me enviou que o João está curtindo e que há terreno fértil para que as coisas avancem bem, e sem perder o lado lúdico. Essa energia faz muito bem.

Por aqui o céu continua azulado e o sol caindo perto das 5 da tarde. As pessoas aproveitam esse momento nos parques, fora de casa, porque no meio de Dezembro acho que começa um clima bem nublado e mais frio, com ventos fortes do Mistral.

Diga ao João que aqui tem muito espaço no parque também pra ele correr e brincar.

João, na foto não aparece, mas nesse parque tem, veja só, até capivara como na Lagoa da Pampulha! Já guardei o seu lugar com a projeção da minha sombra. Quando o sol cair, a projeção também desaparecerá. Mas não se preocupe, porque a gente sempre terá a foto com o lugar guardado.

Um abraço anil,
San

Correspondência #2

Caro amigo,

Hoje saí de casa, depois de muitos dias entocado resolvendo pendengas que são necessárias, mas não me dão prazer. Coisas de dinheiro, essa coisa que faz a gente ralar com um negócio que a cada pouquinho de tempo gasto nele, dá vontade de parar, sei lá, de ficar longe.

Estive nessa última semana trabalhando pruma agência tailandesa à distância, fazendo um planejamento digital. Coisa que me toma quatro horas por dia, o cara lá é bem sossegado e gente boa e tal. E essa coisa de trabalhar em casa ao menos deixa o ar mais leve. Adoro a casinha, o jardim e as plantas, a luz daqui, o sossego. Mas eu tô enferrujado com isso ou isso simplesmente não me atrai mais. Quando termino a lida e vou mexer com o que realmente gosto, pô, sinto a enorme diferença.

Amanhã não sei se vai ter trabalho de lá. A própria possibilidade de não haver, já me deixa feliz.

A saída foi pra ir no banco retirar um dinheiro da minha poupança (não tenho emprego, logo não tenho conta corrente; a banda aqui toca assim) e passar no supermercado. Os mantimentos já começavam a fazer falta no lar.

O percurso não é longe; é uma caminhada bem agradável de uns 15 minutos, margeando um riacho e passando por dento de um parque.  Mas prefiro ir de bicicleta do que ir andando, pra voltar com a carga sobre o quadro da magrela.

No caminho do riacho, vi essa cena que compartilho contigo. Me lembrou como a natureza, mesmo um pouco domesticada, é majestosa.

Já mais próximo do banco, vi pessoas na rua, no seu dia-a-dia. Percebi que não estavam tensas, seguiam caminhando sem correria. É engraçado como que quando a gente fica muito tempo dentro de casa, no sossego, a gente olha aquele tanto de gente na rua de um jeito diferente, de certa forma até surpreso com a existência de tanta gente.

Cheguei ao banco, prendi a bike e fui tirar o dinheiro no caixa eletrônico. Esqueci o papel do código pra tirar o dinheiro que eu ainda não guardo de cabeça, então sem dinheiro fiquei. Tinha ainda 12 euros na carteira, então resolvi ir ao supermercado mesmo assim.

Fui contando de cabeça a grana gasta em cada produto e cheguei na conta certa, sobrando uns 5 centavos. Cheguei na fila do caixa e tinha uma promoção de pacote de 20 litros de terra por 1 euro. Fiquei olhando pros produtos e pensando se eu descartava algum pra comprar a terra. Devia ter uns 20 pacotes de terra, esse trem vai acabar rápido, pensei. Amanhã não vai ter mais. Resolvi não tirar nada, já era pouca coisa que eu tava levando.

O fato é que minhas contas de cabeça não tava certas; sobrou exatamente 1 euro. Comprei a terra e vim de volta pra casa, equilibrando as compras e o saco de terra na magrela e pensando em semear.

Santana

Re: Correspondência #2

Caro amigo,

Gostaria de poder ter respondido antes. Estou fazendo fotos com o iphone, e baixando as fotos num laptop que troquei com o Grazi (deixei meus dois imacs com o Grazi e ele me deixou com o laptop dele). O sistema do laptop não reconhecia o iphone, e a memória do iphone é pequena. Então, fiquei com o telefone cheio de imagens mas não conseguia nem baixar as fotos (e liberar a memória) nem fazer novas fotos, já que o telefone estava lotado. Levei uns três dias lendo tutoriais e decidindo o que fazer, até que finalmente resolvi atualizar o sistema, e daí todo o tempo que foi preciso pra terminar o processo. Pelo menos agora funciona, o computador reconhece o Iphone, e consigo baxar as fotos e fazer os backups em paz.

O tempo aqui ainda é o da adaptação. Mudança de cidade, mudança de lingua, de comunidade. Junto comigo, com o João e com a Dani tem cerca de mais umas 15 pessoas, algumas com filhos, e a convivência é intensa. O lugar se chama Solitude, mas a última coisa que tem aqui é Solitude. As pessoas se encontram o tempo inteiro. Temos aulas de alemão gratuitas com um profesor iraniano, que já foi residente aqui também. Tem um chinês que está em residência agora que faz comida uma vez por semana (comida chinesa, é claro) e oferece aulas de dança pra galera.

Aqui é cercado de verde, seja nuns pastos planos onde ficam cavalos aposentados da polícia alemã, seja na floresta que tem em volta, num grande parque público de Stuttgart. Tenho feitos caminhadas diária, muitas vezes com o João, para gastar energia física, e para tentar reconhecer o entorno. Quando consigo, estou sempre fotografando. Tem muito verde, muita natureza em volta, mas é um lugar de ocupação antiquíssima, o que significa que tudo o que é verde e natural, é na verdade, algo que foi muito modificado e até cultivado por séculos e séculos. As árvores, a paisagem, a água, um segundo olhar enxerga rapidamente a ordem e a mão humana que está lá há séculos e séculos.

Te mando essa foto de um laguinho que tem aqui nos arredores. Acho que de alguma forma me lembra a imagem que você me mandou. Em breve te mando mais notícias.

Abraços,
R.

Correspondência #1

Começando… vamos ver se a gente pega o jeito desse treco…

aguardo sua resposta :-), e depois uma pergunta, aí você numera como #02, e daí seguimos. Podemos ver daqui a pouco o esquema do blog.

abração

ps. aqui é massa demais

Ricardo

Re: Correspondência #1

Queridão, aí vai!

Bom saber que tá curtindo aí.

Por aqui tudo jóia também, tenho ficado um bom tempo em casa resolvendo mil coisas…o que é bom também, a casinha é uma delícia.

abração!

Santana

Sobre o projeto

Correspondência é um diálogo mediado por imagens entre Ricardo Portilho e Santana Dardot.

A conversa é um ‘work in progress’ que aborda questionamentos, descobertas e relatos do cotidiano através da semelhança, da complementaridade temporal/espacial/formal, da reverberação, do contraste e da oposição. Como um jogo de pergunta e resposta, afirmação e réplica, a interação se manifesta em imagens-pergunta, imagens-resposta, imagens-curva, imagens-cacoete, imagens-enigma e imagens-desafio.

O projeto é resultado da experiência atual dos autores de deslocamento de seus habitats: vindos do Brasil para a Alemanha e para a França, Ricardo e Santana decifram afetos e perceptos de suas vivências por meio de derivas, pela contemplação e pelo descondicionamento dos sentidos.

O site possibilita o registro e a apreciação dos caminhos percorridos na comunicação trocada. As imagens aqui são apresentadas em duplas e no formato bruto, original da troca de mensagens, bem como o texto que acompanha o envio de cada imagem.

O projeto pode posteriormente se desdobrar para outros suportes, como continuação de um processo dialógico, experimental e aberto.

About the project

Correspondência (correspondence) is an image-mediated dialogue between Ricardo Portilho and Santana Dardot.

The conversation is a work in progress that addresses questions, discoveries and everyday stories through resemblance, temporal/spatial/formal complementarity, reverberation, contrast, and opposition. As a question-and-answer game, affirmation and replica, the interaction manifest itself in question-images, response-images, curve-images, cacoethes-images, puzzle-images, and challenge-images.

The project is inspired by the authors’ current habitat displacement (from Brazil to Germany and France): Ricardo and Santana decipher affects and percepts of their experiences through ‘dérives’, contemplation and deconditioning of the senses.

The site allows the registration and appreciation of the paths covered in the communication exchanged. The images here are presented in pairs and in a raw, initial state, as well as the text that goes along with each image.

The project can later be developed to other media as a continuation of a dialogical, experimental and open process.

À propos du projet

Correspondência (la correspondance) est un dialogue médiatisé par l’image entre Ricardo Portilho et Santana Dardot.

La conversation est un «work in progress» qui aborde les questions, les découvertes et les histoires quotidiennes à travers la ressemblance, la complémentarité temporelle / spatiale / formelle, la réverbération, le contraste et l’opposition. En tant que jeu de questions-réponses, d’affirmations et de répliques, l’interaction se manifeste par des images-questions, des images-réponses, des images-courbes, des images-tics, des images-puzzle et des images-défis.

Le projet s’inspire du déplacement actuel de l’habitat des auteurs (du Brésil vers l’Allemagne et la France) : Ricardo et Santana déchiffrent les affects et les percepts de leurs expériences à travers les dérives, la contemplation et le déconditionnement des sens.

Le site permet l’enregistrement et l’appréciation des chemins parcourus dans la communication échangée. Les images sont ici présentées par paires et dans un état brut et initial, ainsi que le texte qui accompagne chaque image.

Le projet peut ensuite être développé pour d’autres médias dans le prolongement d’un processus dialogique, expérimental et ouvert.

Correspondentes

Ricardo Portilho (Brasil, 1979) faz projetos que podem tomar forma em diversas mídias e contextos, explorando, na maioria das vezes, acasos, contradições e ambiguidades inerentes à linguagem e ao ser humano. Fundador da Entrecampo, uma iniciativa que se situa na fronteira entre um estudio de design, uma editora e um ateliê de impressão. Fez mestrado em Design no Sandberg Institute (2008). Desde 2011, leciona da Escola de Design da Universidade do Estado de Minas Gerais. Membro associado do JA.CA. Foi artista residente na UNIDEE – Fondazione Pistoletto (2015) e Akademie Schloss Solitude (2018). Expôs projetos no Itaú Cultural, VideoBrasil e na Bienal Brasileira de Design Gráfico.

Santana Dardot é artista visual, formado em Design Gráfico pela Universidade do Estado de Minas Gerais (Brasil). Sua pesquisa atual concentra-se em investigar — a partir de narrativas visuais — experiências relacionadas aos efeitos e presenças das forças do mundo vivo no corpo vivo, que as apreende a partir de afetos, de percepções e do extra-sensorial. Participou das mostras XI Salão Nacional Victor Meirelles* (2017, Brasil), Videobrasil Electronic Art Festival (2003, Brasil), Tipografia Brasilis (2002, Brasil) e da Bienal Brasileira de Design Gráfico (2004, 2006, Brasil). Participação especial na mostra Acervo disseminado – potes do sertão no Museu Mineiro (2016, Brasil) e em diversas publicações internacionais, tais como Latino – America Grafica (2002, Alemanha), Semipermanent (2006, Austrália) e Disorder in Progress (2006, Alemanha). Em 2013, realizou mostra individual no Restaurante do Ano (Brasil). Vive e trabalha em Marseille, França.

Correspondents

Ricardo Portilho (Brazil, 1979) makes projects that can take form in diverse media and contexts, often exploring chance, contradictions and ambiguities inherent from language and human experience. He is a founder of Entrecampo, an initiative that sets itself in the border of a design studio, a publishing house and a printing atelier. Holds a Master degree in Design from Sandberg Institute (2008). Since 2011, teaches at the Design School of Universidade do Estado de Minas Gerais, Brasil. He is an associate member of Jardim Canadá Center of Art (Brazil). Artist residencies include UNIDEE – Fondazione Pistolleto (2015) and Akademie Schloss Solitude (2018). His works were exhibited at Itaú Cultural, VideoBrasil, and the Brazilian Graphic Design Biennial.

Santana Dardot is a visual artist, graduated in Graphic Design at Escola de Design of Universidade do Estado de Minas Gerais, Brazil. His research currently focuses on investigating — through visual narratives — experiences related to the effects and the presence of the forces of the living world in the living body, that seizes them through the affections, the perceptions and the extra-sensorial. He participated in the XI Salão Nacional Victor Meirelles* (2017, Brazil), Videobrasil Electronic Art Festival (2003, Brazil), Tipografia Brasilis (2002, Brazil) and the Brazilian Graphic Design Biennial (2004, 2006, Brazil). He held an individual exhibition at the Galeria do Restaurante do Ano (2013, Brazil) and a special participation in the exhibition Acervo Disseminado – Potes do Sertão (2016, Brazil). He has published works in several publications, such as Latino – America Grafica (2002, Germany), Semipermanent (2006, Australia) and Disorder in Progress (2006, Germany). Lives and works in Marseille, France.

Les correspondants

Ricardo Portilho (Brésil, 1979) fait des projets qui peuvent prendre forme dans divers médias et contextes, explorant souvent le hasard, les contradictions et les ambiguïtés inhérentes au langage et à l’expérience humaine. Il est un des fondateurs de l’Entrecampo, une initiative qui se fixe à la frontière entre un studio de design, une maison d’édition et un atelier d’impression. Titulaire d’un Master en Design du Sandberg Institute (2008). Depuis 2011, il enseigne à l’École de design de l’Université d’État Minas Gerais, Brésil. Il est membre associé du Centre d’art Jardim Canadá (Brésil). Les résidences d’artistes incluent UNIDEE – Fondazione Pistolleto (2015) et Akademie Schloss Solitude (2018). Ses œuvres ont été exposées à Itaú Cultural, VideoBrasil et à la Biennale brésilienne de design graphique.

Santana Dardot est un artiste visuel, diplômé en design graphique à l’Escola de Design de l’Université d’État de Minas Gerais, Brésil. Sa recherche — représentée par le biais des récits visuels — se concentre actuellement sur l’étude des expériences liées aux effets et la présence des forces du monde vivant dans le corps vivant, qui s’empare d’eux à travers les affections, les perceptions et les extrasensorielles. Il a participé au XI Salão Nacional Victor Meirelles * (2017, Brésil), au Videobrasil Electronic Art Festival (2003, Brésil), à Tipografia Brasilis (2002, Brésil) et à la Biennale Brésilienne de Design Graphique (2004, 2006, Brésil). Il a réalisé une exposition individuelle à la Galeria do Restaurante do Ano (2013, Brésil). Il a publié des œuvres dans plusieurs publications, telles que Latino – America Grafica (2002, Allemagne), Semipermanent (2006, Australie) et Disorder in Progress (2006, Allemagne). Participation spéciale à l’exposition Acervo Disseminado – Potes do Sertão (2016, Brésil). Vit et travaille à Marseille, France.

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Correspondência #11

Querido amigo,

Continuo andando pela cidade nova, seguindo os conselhos daquele sujeito chamado Guy.

Me alimento do cotidiano dos moradores da cidade e conto com o acaso.

Mando para você uma descoberta feliz, um caminho longo e infinito, uma saída para além do grid, um desejo de boas viagens.

Abraços,
R.

Re: Correspondência #11

Caro amigo,

Como fruto de uma boa oferenda, o caminho estendido parece ter aberto um fértil horizonte além-mar.

Breve, mas ainda assim, uma estada alvissareira em muitas dimensões.

De volta à cidade-porto, flaneio entre estruturas das fronteiras entre o público e o privado. Visíveis, concretas, tão bem demarcadas.

Outras tantas, talvez destinadas à guardar domínios mais íntimos, por vezes podem se dar ao luxo de ser revelarem em envolventes desarranjos.

Abraços,
San

Correspondência #10

Caro amigo,

Queria te contar um pouco sobre o momento que estou passando, de muito semear em terreno estrangeiro; talvez ao vento, uma vez que ainda sem frutos.

Mas como numa sessão de análise, me vejo monotemático: só consigo pensar nessa cena, nos objetos utilitários capturando árvores.

Estaremos todos, todas e tudo, apreendidos pelo utilitarismo, objetificados, normalizados?
As árvores não ensinariam nada a Sócrates?

E ao mesmo tempo, me questiono, talvez me constato; há encanto na pulsão.

Quiçá, mesmo com o barulho das máquinas, resistência.

Um abraço,
San

Re: Correspondência #10

Caro amigo,

Tento corresponder à sua mensagem;

Penso no conterrâneo de Sócrates, que recebeu como missão rolar uma pedra montanha acima, apenas para, ao chegar lá em cima, ver, com frustração, a pedra voltar ao ponto de partida;

O tempo tem seus ciclos: semear, mesmo que não pareça, vai trazer uma colheita; o vento pode até levar as sementes pra longe, mas elas irão germinar, e de longe os frutos vão chegar até você;

É preciso paciência e resiliência, como o homem que empurra a pedra na montanha; para isso, não há atalhos.

Enquanto isso, o tempo vai cuidar de transformar as sacolas plásticas em pássaros; e quanto isso, não há o que fazer.

Mas para as ações repetitivas, felizmente, já inventamos objetos muito úteis e esteticamente agradáveis.

um abraço,
R.

Correspondência #9

Caro amigo, já começo pedindo desculpas, por não mandar notícias antes.

Já faz algum tempo, eu sei. Na verdade, são exatos dois meses. Muita coisa aconteceu; me vi de novo de volta à nossa cidade, e tentei olhar pra ela com os olhos de quem retorna com saudade.

Descobri, da janela do avião de volta, que por enquanto, só consigo olhar pra lá de longe.

De volta a Alemanha, comecei a andar sem rumo por diversão, seguindo as dicas de um francês chamado Guy, e também de um alemão, chamado Walter.

E hoje, andando quase perdido, encontrei o sumiço de alguém.

Abraços,
R.

Re: Correspondência #9

Caro amigo,

Não nos culpemos pelo o que o corpo, por vezes, nos pede.
Há de haver tempo para marinar, delongar, se fazer presente.

Nossa cidade me parece cada vez mais distante.
Mesmo com a saudade dos amigos e família, que às vezes vem, em ondas.

Por aqui ando enredado em estórias do se assentar.
Incerto, contudo; se alterna a vontade crescida com um desejo leve de sair do chão.

Como um vestígio da dubiedade, descartada sem cuidado, me deparei com um ser coincé; entre o concreto ritmo da cidade e o natural anseio de voar.

Un ballon, non-rouge? Quiçá, retrato móvel de afetos perdidos que parecem estar tão evidentes ultimamente.

Abraços,
San

Correspondência #8

Caro amigo,

Passei algumas vezes nesse caminho e essa cena me atraiu a atenção.

Um habitat humano, cercado pelo conforto, pela comodidade e segurança.

Adentro, souvenirs de um território selvagem que ali já esteve presente: árvores domesticadas, com seus ramos podados para um crescimento dominado, ordenado.

Me pergunto sobre o que não se vê.
Sobre o que se encontra bem guardado, em camadas da existência.

As raízes – estarão também adestradas ou praticam seus desejos naturais?

Um abraço,

San

Re: Correspondência #8

Caro amigo.

Encontrei estas árvores, tão diferentes das que me enviou.

Parece uma espécie nova, decididamente cultivada. Suas raízes são profundas e retilíneas, descem fundo a partir do ao solo mas não se ramificam. Dos seus galhos em divisão regular e previsível crescem folhas retas feitas de aço que oferecem sombra e abrigo.

Durante o dia, milhares de pessoas passam por debaixo destas árvores, espécie de ninho temporário para quem vai voar pra longe.

Durante a noite, curiosos animais de cabelo colorido de indumentária exuberante, brincam na floresta artificial.

Abraços
R.

Correspondência #7

Caro Amigo,

Temos por aqui dias de céu azul, com temperatura em torno de -1 grau.

“It’s crystal clear cold” como me disse um coleguinha alemão.

Descobri uma piscina pública, não muito longe daqui do Solitude. Lá tem água morna, sauna, chuveiros quentes e tudo mais. João adora. Para chegar, pegamos um ônibus, descemos no ponto certo, e atravessamos esse túnel.

Gosto da imagem recortada pelo arco, pela diferença de cores. Uma metáfora de passagem, de promessa, de mudança, talvez.

Abraços,
R.

Re: Correspondência #7

Caro amigo,

Aqui o clima anda bem mais ameno e agradável, entre 10 e 15 graus. O corpo parece que aos poucos começa a se acostumar com os novos ares. Ontem dei até uma pedalada pela cidade sem usar agasalho.

De novidades, sinto que depois de tantas ondas e viradas de tempo, talvez agora o mar esteja ficando propício para o embarque do que foi bem guardado e coberto.

Um abraço,
San

Correspondência #6

Caro amigo,

por aqui ainda toco somente a superfície

aprecio a brisa, leve,
mas há um mar para se mergulhar

saber da profundeza,
o mundo imerso
o fundo a tocar

ou será que seria o inverso-visível,
o ar o mar?

Um abraço,
san

Re: Correspondência #6

Caro amigo,

Sua imagem me trouxe a mente uma outra, vista várias vezes em meus passeios pelo centro de Stuttgart.

Compartilho com você esta imagem e meus pensamentos de deriva.

As pessoas em movimento precário e incerto – se divertem

Escorregam e caem – e sentem prazer

Toca música – uma festa constante, movida a hits de Frank Sinatra.

Há luzes coloridas – bela aurora boreal gerada por LEDs.

A superfície é criada por um circuito de tubos de nitrogênio líquido.

O ar, os líquidos, os sólidos. O audível, o visível, o sensível.

As ilusões.

Correspondência #5

Caro Amigo,

São poucos dias e ainda assim parecem semanas; Esta semana propus uma oficina e edição experimental, junto com uma colega, escritora, também residente aqui. Nunca me encontrei tão incomodado ao me ver nesse papel; nunca encontrei uma turma tão diversa e ao mesmo tempo tão aberta à tentativa, doar parte do precioso tempo para uma experiência que pouco promete.

Hoje foi um dia muito especial, recebemos a visita de algumas famílias de refugiados com suas crianças; Um programa de domingo para eles, para nós, algo que se revelou como um encontro único. Pude ver seus rostos, pais, mães, filhos e filhas. Passearam e brincaram na neve. As crianças com os rostos pintados, transformadas em cachorrinhos, gatinhos, o homem aranha, a princesa, o batman. A sala tocava musica pop americana, eu me perguntava como aquela música soava para eles. Sírios tentando escapar da guerra, visitando um castelo na Alemanha e ouvindo música americana. No final, um almoço em que tomamos sopa e falamos sobre comida, como nós brasileiros gostamos da comida síria, como ela é comum no Brasil, como existe uma herança comum. Um esboço de reconhecimento entre realidades tão diferentes, a minha e a deles.

Muitas imagens e percepções se sucedem todos os dias. No nosso jogo, muitas vezes tento imaginar qual será o próximo passo, que imagem seria a próxima que continuaria a tecer o fio para o próximo movimento. Penso em imagens-pergunta, imagens-resposta, imagens-curva, imagens-cacoete, imagens-desafio.

Esta semana coletei e acumulei imagens-documento, pedaços do dia-a-dia, mas decidi enviar uma imagem que talvez possa andar junto com esta mensagem, sem mostrar nada sobre ela, mas talvez deixar uma sensação, imagem mudada com o passar dos dias, branca como folha de papel à espera do lápis.

Abraços,
R.

Re: Correspondência #5

Caro amigo,

Ao ler sua mensagem, fiquei imaginando como a oficina mesmo parecendo ser uma experiência delimitada, deve ter sido viva e intensa. Acho que talvez pela simplicidade, pela abertura ao exercício, por estar de uma certa forma livre de camadas isolantes, protetoras. Quiçá tenha aberto o caminho para diálogos sensíveis, agindo como uma senha para se ‘baixar a guarda’, despindo por um momento a casca que nos distancia e nos protege de forças externas capazes de nos agredir.

Por aqui, há uns meses atrás também tive em contato com alguns refugiados, num curso de francês que fiz. São estórias tristes, de muitas perdas, de raízes cortadas de forma bruta, violenta. Mas também de um recomeço. Marseille é uma cidade-porto onde a cultura árabe e africana é bem presente e que acolhe para uma nova vida. Ao mesmo tempo, não dispõe de uma reacomodação tão inclusiva: essa receptividade convive com um desacordo de parte da sociedade francesa à presença de estrangeiros de um modo geral. Às vezes uma oposição sutil, encoberta em pequenos gestos, imersa na linguagem corporal. Ou mais explícita, visível na criação de dificuldades nas tarefas mais corriqueiras à simples negação de direitos.

Para mim, estar aqui tem sido qualquer coisa como tatear no escuro, como ver por meio de uma penumbra. Intuir, desvendar aos poucos códigos, combinações e significados, às vezes sem entendê-los num primeiro olhar.

Explorar um campo fértil, lúdico e potente, se orientar por pistas entre o familiar e o desconhecido, sem avistar o que vem pela frente. Como as trilhas dos calanques que margeiam Marseille, um território que se desdobra aos poucos, rico em acidentes, declives, desafios, conquistas e caminhos. Aventuremos.

Um abraço,
San

Correspondência #4

Caro amigo,

Te mando essa foto que fiz no entardecer, a noite quase entrando, perto da praia.

Deixo para ti a perspectiva de seguir trilhas evidentes, demarcadas
ou o sabor de vaguear por caminhos incobertos, imprecisos.

Grande abraço,
san

Re: Correspondência #4

Caro Amigo

Eu sabia onde devia ir, sabia quando, mas de alguma forma perdi o momento exato.

Decidi continuar mesmo assim. No meio do vento, sentindo o frio nas mãos, consegui chegar quase perto do que eu desejava.

Um caminho que se desenha, talvez: sair da zona de conforto e tentar novas descobertas.

Abraços,
R.

Correspondência #3

Caro amigo,

Esta cena aconteceu há uma semana atrás, quando ainda existia céu azul e a temperatura estava em torno dos 10ºC. Agora tudo é neblina e o céu sempre branco ou cinza. Já nos sentimos mais em casa… tento olhar para a cidade e os assuntos urbanos, acho que em breve mandarei outras cores e coisas para você. Por enquanto uma imagem de liberdade e otimismo, horizonte reto, grama verde e uma criança que corre.

Abraços,
R.

Re: Correspondência #3

Caro amigo,

Fico feliz que esteja se sentindo confortável, como se tivesse em teu lar.

Senti na foto que me enviou que o João está curtindo e que há terreno fértil para que as coisas avancem bem, e sem perder o lado lúdico. Essa energia faz muito bem.

Por aqui o céu continua azulado e o sol caindo perto das 5 da tarde. As pessoas aproveitam esse momento nos parques, fora de casa, porque no meio de Dezembro acho que começa um clima bem nublado e mais frio, com ventos fortes do Mistral.

Diga ao João que aqui tem muito espaço no parque também pra ele correr e brincar.

João, na foto não aparece, mas nesse parque tem, veja só, até capivara como na Lagoa da Pampulha! Já guardei o seu lugar com a projeção da minha sombra. Quando o sol cair, a projeção também desaparecerá. Mas não se preocupe, porque a gente sempre terá a foto com o lugar guardado.

Um abraço anil,
San

Correspondência #2

Caro amigo,

Hoje saí de casa, depois de muitos dias entocado resolvendo pendengas que são necessárias, mas não me dão prazer. Coisas de dinheiro, essa coisa que faz a gente ralar com um negócio que a cada pouquinho de tempo gasto nele, dá vontade de parar, sei lá, de ficar longe.

Estive nessa última semana trabalhando pruma agência tailandesa à distância, fazendo um planejamento digital. Coisa que me toma quatro horas por dia, o cara lá é bem sossegado e gente boa e tal. E essa coisa de trabalhar em casa ao menos deixa o ar mais leve. Adoro a casinha, o jardim e as plantas, a luz daqui, o sossego. Mas eu tô enferrujado com isso ou isso simplesmente não me atrai mais. Quando termino a lida e vou mexer com o que realmente gosto, pô, sinto a enorme diferença.

Amanhã não sei se vai ter trabalho de lá. A própria possibilidade de não haver, já me deixa feliz.

A saída foi pra ir no banco retirar um dinheiro da minha poupança (não tenho emprego, logo não tenho conta corrente; a banda aqui toca assim) e passar no supermercado. Os mantimentos já começavam a fazer falta no lar.

O percurso não é longe; é uma caminhada bem agradável de uns 15 minutos, margeando um riacho e passando por dento de um parque.  Mas prefiro ir de bicicleta do que ir andando, pra voltar com a carga sobre o quadro da magrela.

No caminho do riacho, vi essa cena que compartilho contigo. Me lembrou como a natureza, mesmo um pouco domesticada, é majestosa.

Já mais próximo do banco, vi pessoas na rua, no seu dia-a-dia. Percebi que não estavam tensas, seguiam caminhando sem correria. É engraçado como que quando a gente fica muito tempo dentro de casa, no sossego, a gente olha aquele tanto de gente na rua de um jeito diferente, de certa forma até surpreso com a existência de tanta gente.

Cheguei ao banco, prendi a bike e fui tirar o dinheiro no caixa eletrônico. Esqueci o papel do código pra tirar o dinheiro que eu ainda não guardo de cabeça, então sem dinheiro fiquei. Tinha ainda 12 euros na carteira, então resolvi ir ao supermercado mesmo assim.

Fui contando de cabeça a grana gasta em cada produto e cheguei na conta certa, sobrando uns 5 centavos. Cheguei na fila do caixa e tinha uma promoção de pacote de 20 litros de terra por 1 euro. Fiquei olhando pros produtos e pensando se eu descartava algum pra comprar a terra. Devia ter uns 20 pacotes de terra, esse trem vai acabar rápido, pensei. Amanhã não vai ter mais. Resolvi não tirar nada, já era pouca coisa que eu tava levando.

O fato é que minhas contas de cabeça não tava certas; sobrou exatamente 1 euro. Comprei a terra e vim de volta pra casa, equilibrando as compras e o saco de terra na magrela e pensando em semear.

Santana

Re: Correspondência #2

Caro amigo,

Gostaria de poder ter respondido antes. Estou fazendo fotos com o iphone, e baixando as fotos num laptop que troquei com o Grazi (deixei meus dois imacs com o Grazi e ele me deixou com o laptop dele). O sistema do laptop não reconhecia o iphone, e a memória do iphone é pequena. Então, fiquei com o telefone cheio de imagens mas não conseguia nem baixar as fotos (e liberar a memória) nem fazer novas fotos, já que o telefone estava lotado. Levei uns três dias lendo tutoriais e decidindo o que fazer, até que finalmente resolvi atualizar o sistema, e daí todo o tempo que foi preciso pra terminar o processo. Pelo menos agora funciona, o computador reconhece o Iphone, e consigo baxar as fotos e fazer os backups em paz.

O tempo aqui ainda é o da adaptação. Mudança de cidade, mudança de lingua, de comunidade. Junto comigo, com o João e com a Dani tem cerca de mais umas 15 pessoas, algumas com filhos, e a convivência é intensa. O lugar se chama Solitude, mas a última coisa que tem aqui é Solitude. As pessoas se encontram o tempo inteiro. Temos aulas de alemão gratuitas com um profesor iraniano, que já foi residente aqui também. Tem um chinês que está em residência agora que faz comida uma vez por semana (comida chinesa, é claro) e oferece aulas de dança pra galera.

Aqui é cercado de verde, seja nuns pastos planos onde ficam cavalos aposentados da polícia alemã, seja na floresta que tem em volta, num grande parque público de Stuttgart. Tenho feitos caminhadas diária, muitas vezes com o João, para gastar energia física, e para tentar reconhecer o entorno. Quando consigo, estou sempre fotografando. Tem muito verde, muita natureza em volta, mas é um lugar de ocupação antiquíssima, o que significa que tudo o que é verde e natural, é na verdade, algo que foi muito modificado e até cultivado por séculos e séculos. As árvores, a paisagem, a água, um segundo olhar enxerga rapidamente a ordem e a mão humana que está lá há séculos e séculos.

Te mando essa foto de um laguinho que tem aqui nos arredores. Acho que de alguma forma me lembra a imagem que você me mandou. Em breve te mando mais notícias.

Abraços,
R.

Correspondência #1

Começando… vamos ver se a gente pega o jeito desse treco…

aguardo sua resposta :-), e depois uma pergunta, aí você numera como #02, e daí seguimos. Podemos ver daqui a pouco o esquema do blog.

abração

ps. aqui é massa demais

Ricardo

Re: Correspondência #1

Queridão, aí vai!

Bom saber que tá curtindo aí.

Por aqui tudo jóia também, tenho ficado um bom tempo em casa resolvendo mil coisas…o que é bom também, a casinha é uma delícia.

abração!

Santana

Sobre o projeto

Correspondência é um diálogo mediado por imagens entre Ricardo Portilho e Santana Dardot.

A conversa é um ‘work in progress’ que aborda questionamentos, descobertas e relatos do cotidiano através da semelhança, da complementaridade temporal/espacial/formal, da reverberação, do contraste e da oposição. Como um jogo de pergunta e resposta, afirmação e réplica, a interação se manifesta em imagens-pergunta, imagens-resposta, imagens-curva, imagens-cacoete, imagens-enigma e imagens-desafio.

O projeto é resultado da experiência atual dos autores de deslocamento de seus habitats: vindos do Brasil para a Alemanha e para a França, Ricardo e Santana decifram afetos e perceptos de suas vivências por meio de derivas, pela contemplação e pelo descondicionamento dos sentidos.

O site possibilita o registro e a apreciação dos caminhos percorridos na comunicação trocada. As imagens aqui são apresentadas em duplas e no formato bruto, original da troca de mensagens, bem como o texto que acompanha o envio de cada imagem.

O projeto pode posteriormente se desdobrar para outros suportes, como continuação de um processo dialógico, experimental e aberto.

About the project

Correspondência (correspondence) is an image-mediated dialogue between Ricardo Portilho and Santana Dardot.

The conversation is a work in progress that addresses questions, discoveries and everyday stories through resemblance, temporal/spatial/formal complementarity, reverberation, contrast, and opposition. As a question-and-answer game, affirmation and replica, the interaction manifest itself in question-images, response-images, curve-images, cacoethes-images, puzzle-images, and challenge-images.

The project is inspired by the authors’ current habitat displacement (from Brazil to Germany and France): Ricardo and Santana decipher affects and percepts of their experiences through ‘dérives’, contemplation and deconditioning of the senses.

The site allows the registration and appreciation of the paths covered in the communication exchanged. The images here are presented in pairs and in a raw, initial state, as well as the text that goes along with each image.

The project can later be developed to other media as a continuation of a dialogical, experimental and open process.

À propos du projet

Correspondência (la correspondance) est un dialogue médiatisé par l’image entre Ricardo Portilho et Santana Dardot.

La conversation est un «work in progress» qui aborde les questions, les découvertes et les histoires quotidiennes à travers la ressemblance, la complémentarité temporelle / spatiale / formelle, la réverbération, le contraste et l’opposition. En tant que jeu de questions-réponses, d’affirmations et de répliques, l’interaction se manifeste par des images-questions, des images-réponses, des images-courbes, des images-tics, des images-puzzle et des images-défis.

Le projet s’inspire du déplacement actuel de l’habitat des auteurs (du Brésil vers l’Allemagne et la France) : Ricardo et Santana déchiffrent les affects et les percepts de leurs expériences à travers les dérives, la contemplation et le déconditionnement des sens.

Le site permet l’enregistrement et l’appréciation des chemins parcourus dans la communication échangée. Les images sont ici présentées par paires et dans un état brut et initial, ainsi que le texte qui accompagne chaque image.

Le projet peut ensuite être développé pour d’autres médias dans le prolongement d’un processus dialogique, expérimental et ouvert.

Correspondentes

Ricardo Portilho (Brasil, 1979) faz projetos que podem tomar forma em diversas mídias e contextos, explorando, na maioria das vezes, acasos, contradições e ambiguidades inerentes à linguagem e ao ser humano. Fundador da Entrecampo, uma iniciativa que se situa na fronteira entre um estudio de design, uma editora e um ateliê de impressão. Fez mestrado em Design no Sandberg Institute (2008). Desde 2011, leciona da Escola de Design da Universidade do Estado de Minas Gerais. Membro associado do JA.CA. Foi artista residente na UNIDEE – Fondazione Pistoletto (2015) e Akademie Schloss Solitude (2018). Expôs projetos no Itaú Cultural, VideoBrasil e na Bienal Brasileira de Design Gráfico.

Santana Dardot é artista visual, formado em Design Gráfico pela Universidade do Estado de Minas Gerais (Brasil). Sua pesquisa atual concentra-se em investigar — a partir de narrativas visuais — experiências relacionadas aos efeitos e presenças das forças do mundo vivo no corpo vivo, que as apreende a partir de afetos, de percepções e do extra-sensorial. Participou das mostras XI Salão Nacional Victor Meirelles* (2017, Brasil), Videobrasil Electronic Art Festival (2003, Brasil), Tipografia Brasilis (2002, Brasil) e da Bienal Brasileira de Design Gráfico (2004, 2006, Brasil). Participação especial na mostra Acervo disseminado – potes do sertão no Museu Mineiro (2016, Brasil) e em diversas publicações internacionais, tais como Latino – America Grafica (2002, Alemanha), Semipermanent (2006, Austrália) e Disorder in Progress (2006, Alemanha). Em 2013, realizou mostra individual no Restaurante do Ano (Brasil). Vive e trabalha em Marseille, França.

Correspondents

Ricardo Portilho (Brazil, 1979) makes projects that can take form in diverse media and contexts, often exploring chance, contradictions and ambiguities inherent from language and human experience. He is a founder of Entrecampo, an initiative that sets itself in the border of a design studio, a publishing house and a printing atelier. Holds a Master degree in Design from Sandberg Institute (2008). Since 2011, teaches at the Design School of Universidade do Estado de Minas Gerais, Brasil. He is an associate member of Jardim Canadá Center of Art (Brazil). Artist residencies include UNIDEE – Fondazione Pistolleto (2015) and Akademie Schloss Solitude (2018). His works were exhibited at Itaú Cultural, VideoBrasil, and the Brazilian Graphic Design Biennial.

Santana Dardot is a visual artist, graduated in Graphic Design at Escola de Design of Universidade do Estado de Minas Gerais, Brazil. His research currently focuses on investigating — through visual narratives — experiences related to the effects and the presence of the forces of the living world in the living body, that seizes them through the affections, the perceptions and the extra-sensorial. He participated in the XI Salão Nacional Victor Meirelles* (2017, Brazil), Videobrasil Electronic Art Festival (2003, Brazil), Tipografia Brasilis (2002, Brazil) and the Brazilian Graphic Design Biennial (2004, 2006, Brazil). He held an individual exhibition at the Galeria do Restaurante do Ano (2013, Brazil) and a special participation in the exhibition Acervo Disseminado – Potes do Sertão (2016, Brazil). He has published works in several publications, such as Latino – America Grafica (2002, Germany), Semipermanent (2006, Australia) and Disorder in Progress (2006, Germany). Lives and works in Marseille, France.

Les correspondants

Ricardo Portilho (Brésil, 1979) fait des projets qui peuvent prendre forme dans divers médias et contextes, explorant souvent le hasard, les contradictions et les ambiguïtés inhérentes au langage et à l’expérience humaine. Il est un des fondateurs de l’Entrecampo, une initiative qui se fixe à la frontière entre un studio de design, une maison d’édition et un atelier d’impression. Titulaire d’un Master en Design du Sandberg Institute (2008). Depuis 2011, il enseigne à l’École de design de l’Université d’État Minas Gerais, Brésil. Il est membre associé du Centre d’art Jardim Canadá (Brésil). Les résidences d’artistes incluent UNIDEE – Fondazione Pistolleto (2015) et Akademie Schloss Solitude (2018). Ses œuvres ont été exposées à Itaú Cultural, VideoBrasil et à la Biennale brésilienne de design graphique.

Santana Dardot est un artiste visuel, diplômé en design graphique à l’Escola de Design de l’Université d’État de Minas Gerais, Brésil. Sa recherche — représentée par le biais des récits visuels — se concentre actuellement sur l’étude des expériences liées aux effets et la présence des forces du monde vivant dans le corps vivant, qui s’empare d’eux à travers les affections, les perceptions et les extrasensorielles. Il a participé au XI Salão Nacional Victor Meirelles * (2017, Brésil), au Videobrasil Electronic Art Festival (2003, Brésil), à Tipografia Brasilis (2002, Brésil) et à la Biennale Brésilienne de Design Graphique (2004, 2006, Brésil). Il a réalisé une exposition individuelle à la Galeria do Restaurante do Ano (2013, Brésil). Il a publié des œuvres dans plusieurs publications, telles que Latino – America Grafica (2002, Allemagne), Semipermanent (2006, Australie) et Disorder in Progress (2006, Allemagne). Participation spéciale à l’exposition Acervo Disseminado – Potes do Sertão (2016, Brésil). Vit et travaille à Marseille, France.

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